Entrevista: Andrea Aparecida Ferreira

A lama que se alastrou ao longo do rio Doce afetou não só o ambiente, como também alterou de maneira drástica o modo de vida das comunidades e suas relações interpessoais. A região da Foz, onde o rio alcança o mar, a comunidade de Povoação, distrito de Linhares (ES), é uma que dificilmente voltará a ser a mesma. Ao chegar ao oceano, o rejeito se espalhou pela costa litorânea gerando impacto no turismo na região, na prática de esportes como o surf e também no modo de vida das colônias de pescadores na região. Filha de um dos pescadores atingidos e representante da comunidade no Conselho Consultivo – instância de governança da Fundação Renova – Andrea Aparecida Ferreira falou à dois pontos. Aqui ela conta sobre a desconfiança inicial com o trabalho de reparação logo no início do cadastramento de atingidos – processo que gerou muitas dúvidas e resistência –, como as fraudes atrapalharam o processo e a necessidade de resgatar a confiança entre as próprias pessoas. Segundo, Andrea a indenização melhorou as condições materiais, mas ao mesmo tempo alterou o estilo de vida de Povoação, afetando inclusive os laços comunitários. “Não adianta desejar o rio de antes. A comunidade de hoje é outra. E a forma de viver e pensar também. Então tenho de me adequar ao que estou vivendo agora”, diz.

Dois Pontos: Como o desastre de Mariana afetou a sua vida?

Andrea Aparecida: Afetou principalmente da forma econômica. Mas também no lazer. Com o desastre, nós não temos mais como nos banhar, porque não sabemos se é permitido ou não. E também pela qualidade do pescado, porque não temos como vender um produto sem garantia de qualidade. Não sabemos se o peixe do rio é apropriado para consumo humano, se é proibido pescar e vender… Diante disto, estamos aqui à mercê. Sem informações do que é ou não permitido.

Dois Pontos: A sua família sempre viveu da pesca? O rio dava muito peixe?

Andrea Aparecida: Sim, muito peixe. Só o meu pai tem 60 anos de pesca. Uma vida inteira.

Dois Pontos: De que renda vocês estão vivendo hoje? A indenização já foi paga em Povoação?

Andrea Aparecida: Noventa por cento da comunidade já foi atendida e está sendo indenizada. Ainda há um grupo para receber o auxílio financeiro. Essa ajuda foi muito positiva, porque muitos de nós não tínhamos os bens que passamos a ter depois do desastre. Mas a parte negativa é você se sentir dependente de uma situação.

Dois Pontos: A indenização cobre os danos materiais. Em relação à parte afetiva e emocional – por exemplo, no tocante ao lazer –, a senhora entende que a comunidade foi compensada, ou não?

Andrea Aparecida: Não está compensada porque tem um número enorme de crianças aqui. Foi construído um parquinho para as crianças, mas com esse número muito alto, muitas delas estão sem alternativas [de lazer]. As crianças estavam acostumadas a nadar no rio, atravessar, voltar, ir até as ilhas. E agora, não. A gente ainda não sabe se elas podem nadar no rio.

Dois Pontos: A Fundação Renova estimou algum prazo para dar este tipo de informação que vocês precisam?

Andrea Aparecida: Estamos aguardando. Mas essa é uma responsabilidade tanto da Renova quanto do governo. Até porque quando a Renova sair de cena, quem vai continuar conosco é o governo. Nós esperávamos sair da conferência com informações positivas, mas saímos de lá com mais dúvidas ainda. O próprio governo não tinha algo concreto ainda.

Dois Pontos: Como a senhora avalia o processo para cadastrar e indenizar os atingidos? Foi melhor ou pior do que a senhora esperava?

Andrea Aparecida: O cadastro, no início, trouxe muita dúvida, pois acabou contemplando muitas pessoas de fora da comunidade. Mas também entendo que, assim como era difícil para a Samarco [que começou o cadastramento emergencial, antes da Renova ser criada], era difícil para nós como impactados. Eu acredito que, por pior que seja o ser humano, ninguém ia causar um dano tão grande para depois criar essa confusão, né? No início do cadastramento, houve muita injustiça. Tanto que, até hoje, pessoas [atingidas] não foram atendidas, tiveram dificuldades de responder, enquanto gente de fora recebeu atendimento.

Dois Pontos: A senhora está falando de fraude? De pessoas que não teriam direito à indenização, mas receberam?

Andrea Aparecida: Sim, são pessoas que fraudaram, que vieram de outras localidades. Nós tivemos superlotação nas escolas, nas casas alugadas. As próprias comunidades também foram responsáveis porque facilitavam a comprovação dessas pessoas como se fossem moradores. Se não houvesse essa facilidade, acredito que o número de fraudes não cresceria. Naquele intuito de ajudar um amigo ou um parente de fora, acabou-se criando um problema dentro da comunidade. Para ter direito [à indenização], eles teriam que mostrar dados de que eram da comunidade. No meu entender, como uma pessoa da Bahia, de São Paulo, do Rio teria como mostrar esses dados se alguém de dentro da comunidade não os fornecesse? Então teve culpa dos dois lados: da comunidade e do próprio [processo de] cadastro, que não exigia na época todos os critérios que exige hoje.

Dois Pontos: É um processo bastante criterioso. A senhora entende isso como uma burocracia excessiva ou como algo necessário?

Andrea Aparecida: Acho que é necessário porque, se for de outra forma, a fraude vai continuar. E a gente precisava dar um basta. Para corrigir algo, você tem de criar esses critérios que dificultam para aquelas pessoas que encontram facilidades. Depois disso, a fraude diminuiu bastante.

Dois Pontos: Como reagem as pessoas que têm direito a receber e veem que a indenização está demorando muito? Elas entendem essa demora?

Andrea Aparecida: Noventa por cento dos pescadores não têm estudo. Essas pessoas tiveram dificuldades no início até mesmo para responder aos questionamentos do cadastro. Estamos conseguindo refazer todo o processo. Tanto que criamos agora uma política da pesca para reconhecer o pescador de fato. Mas entendo que estes critérios têm de existir porque, se continuasse como estava, a gente perderia o controle e não conseguiria indenizar aqueles que realmente mereciam. As pessoas mais impacientes são aquelas que se declararam uma coisa que não eram. As que estão fazendo barulho são as pessoas que forjaram uma identidade que não é a delas. Os [atingidos] de fato são os que menos dão problemas e esperam com paciência.

Dois Pontos: Quando a Renova instaurou o Programa de Indenização Mediada (PIM), isso trouxe agilidade ao processo?

Andrea Aparecida: Bastante, até porque o PIM móvel veio para perto da gente, tivemos maior facilidade de acesso. Nós o recebemos aqui na comunidade Temos um centro comunitário e cedemos o espaço para eles, para que pudessem fazer o atendimento dentro da comunidade. Isso ajudou muito. Hoje falta um número pequeno para indenizar.

Dois Pontos: É algo que a senhora acredita que será resolvido logo?

Andrea Aparecida: Acredito que sim, estou esperançosa até porque estamos fazendo um bom trabalho. Criamos até um grupo de WhatsApp no qual está o PIM, está o cadastro. Quando as pessoas têm dificuldade, a gente passa para este grupo e automaticamente dá um retorno para aquela pessoa que a gente encaminhou. É muito rápido. Antes as pessoas esperavam indenização por 90 dias. Hoje, está saindo em [média de] sete dias. Melhorou muito mesmo.

Dois Pontos: Como é a relação com a Fundação Renova? A comunidade em geral entende a Renova de uma maneira positiva ou negativa?

Andrea Aparecida: Por ter tido muito problema no início, eles entendem a Renova como uma ameaça. Eles veem a Renova como se fosse a Samarco. Não conseguem distinguir uma coisa da outra e por isso ainda têm um pezinho atrás, um receio. Perguntam: “Será que a Renova quer mesmo resolver minha situação?” É natural [essa desconfiança], até pelo tamanho do problema que existe. Existem muitos grupinhos negativos. Por mais que tenha muita coisa sendo feita, algumas pessoas insistem em colocar nas redes sociais os pontos negativos. Diante do trabalho que está sendo feito, isso acaba criando muita dúvida. “Será isso?” “Será aquilo?” “Será que isto é real?”

Dois Pontos: Como funciona o Conselho Consultivo do qual a senhora faz parte?

Andrea Aparecida: Nós levamos as demandas das comunidades – vamos por todas as áreas – para o Conselho Consultivo, que encaminha para o Conselho Curador e eles nos devolvem o que nós encaminhamos. E então trazemos de volta para a comunidade. No início também houve muita dificuldade. A gente não era muito ouvida no Conselho. Mas com o tempo as coisas foram melhorando. E hoje, graças a Deus, o nosso trabalho está sendo até valorizado pela comunidade que a gente representa.

Dois Pontos: A senhora pode dar um exemplo de coisas que conseguiram por meio deste Conselho?

Andrea Aparecida: Antes, somente [a comunidade de] Regência era reconhecida pelo turismo, pela proximidade com a foz do Rio Doce. Povoação, que fica ao lado, não tinha o mesmo tratamento. A gente acabou mudando essa situação ao levar a questão para dentro do Conselho. Todo o processo foi mudado, agora há um tratamento igual na Foz, nos dois lados. Na área pesqueira, criamos uma nova política para o pescador de fato. A gente também tem levado para o Conselho muitas demandas pequenas da comunidade em termos de cadastro e de reavaliação de cadastros negativos. Algumas situações já estão sendo revistas.

Dois Pontos: O que ainda pode melhorar no processo de participação do Conselho?

Andrea Aparecida: O que está melhorando é justamente a confiança. Porque eles [a comunidade] têm a gente como uma referência. E antes nos viam como Renova. A comunidade também tinha receio da gente. Tanto que, no início, enfrentamos muitas dificuldades. Eu, por exemplo, tive a minha casa invadida, fui agredida na rua só por fazer parte do Conselho Consultivo. Tive até bens roubados, porque acreditavam que eu estava com o cartão [de indenização]. Eles acham que a gente recebe por isso, sendo que o nosso trabalho é voluntário. Passamos por situações desagradáveis. Fora a nossa imagem nas redes sociais: botavam no grupo que a gente era ladrão, que era corrompido. E o que nos motivava e até hoje motiva é um pequeno grupo de pescadores que nunca duvidou do nosso trabalho.

Dois Pontos: Povoação é um lugar pequeno em que todo mundo se conhece? Como é a relação entre as pessoas?

Andrea Aparecida: Nós temos aqui 512 famílias e 3.500 habitantes, pegando toda a redondeza, as fazendas. É uma quantidade boa de pessoas. Mas, mesmo assim, antes todo mundo tinha o hábito de se cumprimentar, dar um bom dia. Hoje em dia, as pessoas passam por nós na rua e a única coisa que elas perguntam é: “Você recebeu o seu cartão?” Então aquele costume que a gente tinha dentro da comunidade se perdeu, a comunidade ficou mais dividida. Se um vizinho recebeu e o outro não, eles acabam ficando inimigos. Criam um muro mais alto para não ter acesso ao vizinho. Virou esse problema social.

Dois Pontos: A senhora acha que isso algum dia pode ser resolvido? Como fazer para unir de novo as pessoas?

Andrea Aparecida: É um trabalho de formiguinha, né? Tudo requer tempo, porque a gente teve de se readequar a um novo perfil. Nos não somos mais a Povoação de antes. A gente hoje tem uma nova Povoação, com um perfil diferente. Então não posso viver do que era antes. Mas, sim, tentar criar uma nova forma de vida, de acordo com hoje. É um desafio que requer tempo, requer paciência, até porque as pessoas mudaram seu jeito de pensar. Antes, no nosso ritmo de vida, nós tínhamos pouco, mas tínhamos [dinheiro todos os dias]. Hoje em dia, são pagos valores altos, que as pessoas receberam como indenização. Agora elas não conseguem mais se imaginar com o valor pequeno de antes. Tudo mudou.

Dois Pontos: Antes se vivia bem com pouco? Aí chegou muito dinheiro de repente, é isso?

Andrea Aparecida: A pesca tem valores por dia. Eu ia lá, pescava, vendia ou trocava e tinha aquele dinheiro todos os dias. Hoje em dia você tem um valor mensal. Um valor que nunca pensávamos que teríamos. É um valor alto. Temos uma casa boa, uma qualidade de vida melhor do que antes. Todo o canto em que você for, vai ver. A maioria das pessoas tem casas boas, tem automóvel. A qualidade de vida melhorou com o dinheiro da indenização.

Dois Pontos: Quanto foi aproximadamente o valor da indenização?

Andrea Aparecida: A indenização depende do valor da embarcação. Tem embarcação de popa de R$ 108 mil, R$ 113 mil. Tem embarcação de centro de quase R$ 160 mil. Tem embarcação a remo. São valores muito altos e várias formas de indenização. Para cada tipo de embarcação e cada tipo de pesca, tem um valor.

Dois Pontos: A indenização será paga até quando? Se o rio voltar a dar peixes como antes, a indenização acaba?

Andrea Aparecida: Ela foi paga de acordo com os dois anos que passaram. Nos próximos anos, se a gente não puder voltar às nossas atividades, será feito um novo acordo. Eu só fico triste porque precisou ter uma catástrofe destas para que as nascentes fossem recuperadas. Temos hoje uma quantidade enorme de nascentes recuperadas. Até a qualidade de água em algumas localidades melhorou, o saneamento básico melhorou. Está acontecendo muita coisa positiva. Eu acredito que futuramente a nossa qualidade de vida em termos da água estará 90% melhor do que antes.

Dois Pontos: Até porque antes do desastre, não estava tudo uma maravilha, né?

Andrea Aparecida: Não, não estava.

Dois Pontos: Então próximo desafio é resgatar os laços humanos? E recuperar a vida no rio?

Andrea Aparecida: Eu até escutei do Roberto [Waack, presidente da Renova] uma pergunta sobre a forma que a gente queria o rio, se a gente queria igual a antes. O que a gente vivia antes ficou no passado. Não posso ficar imaginando o rio de três, quatro, cinco anos atrás. Porque a realidade de hoje é outra e a comunidade de hoje é outra. E a forma de viver e pensar também. Então tenho de me adequar ao que estou vivendo agora.

Dois Pontos: Não adianta desejar o que já passou?

Andrea Aparecida: Não vai adiantar. Ate porque as pessoas hoje não aceitariam, né? Nos tínhamos um estilo de vida completamente diferente.